PAIR.TRADING

Pairs trading e como ele difere de comprar

Comprar é uma aposta em direção. Um par é uma aposta na distância entre dois ativos — outro risco, outro prazo e outro jeito de errar.

A versão curta

Comprar faz uma pergunta: isso vai subir?

Um par faz outra: esses dois vão voltar a se juntar? Direção não entra na conta. Os dois ativos podem cair, os dois podem subir, e o par se liquida pela distância entre eles — e por mais nada.

É essa a ideia inteira. Todo o resto abaixo é o que custa sustentá-la na prática.

O que a posição carrega de fato

Um par clássico é comprado num ativo e vendido no outro, dimensionado para que as duas pernas se anulem. A proporção não é de um para um: é o hedge ratio β, quanto o segundo ativo historicamente andou a cada movimento do primeiro.

O que esse cancelamento remove é o mercado. Se tudo cai 30% junto, as duas pernas descem com ele e o resultado quase não percebe.

O que sobra é o resíduo — a parte de um preço que o outro não explica. Medido contra a própria amplitude recente, esse resíduo vira um Z-Score, e é nele que se olha num par. O preço em dólar de qualquer das pernas deixou de ser o assunto.

Para quem apenas carrega moedas existe a versão da mesma ideia sem venda a descoberto: a rotação. Vender o que ficou caro em relação ao outro, comprar o barato e carregar até a distância fechar. O resultado é relativo — mais do outro ativo, não mais dólares —, e a seção seguinte mostra isso literalmente.

Um caso real, tirado da nossa base

Tome BNB e NEAR, e os primeiros meses de 2022.

Em 7 de janeiro de 2022 o spread entre os dois cruzou −2σ: NEAR tinha ficado caro em relação ao BNB, mais longe do que em qualquer dia comum do semestre anterior. O BNB valia US$ 448; o NEAR, US$ 15,06. Um BNB comprava cerca de trinta NEAR.

Depois o mercado inteiro caiu.

Em 22 de maio de 2022 o spread estava de volta à sua norma, e o episódio fechou no 135º dia. O BNB valia US$ 319 — queda de 28,7%. O NEAR valia US$ 6,24 — queda de 58,5%. Quem carregava qualquer um dos dois perdeu dinheiro, e quem escolheu «o projeto melhor» perdeu mais.

A distância, porém, fez exatamente aquilo que se espera dela. Um BNB passou a comprar cinquenta e um NEAR em vez de trinta: o par andou 72% a favor da perna que estava barata.

Quem girou NEAR para BNB em 7 de janeiro continuou com 28,7% de prejuízo em dólar no fim da história. E também terminou com 72% mais valor do que se tivesse ficado no NEAR. As duas frases são verdadeiras, e a segunda é a única coisa que um par promete.

BNB/NEAR agora
149.09 NEAR por 1 BNB
57 percentil em 2198 dias
-1.55 Z-Score ante a norma de 180 dias

Divergências em 2019 dias: 13. O retorno mediano levou 110 dias; o mais longo, 351. O par está em divergência agora, já há 8 dias.

BNB/NEAR ano a ano
Ano Mínima Mediana Máxima
2020 25.7 31.4 50.5
2021 16.3 61.4 164.6
2022 24.0 61.5 196.1
2023 62.8 168.6 214.0
2024 66.5 105.9 152.7
2025 120.1 288.4 581.8
2026 128.0 375.2 649.1

Gráfico ao vivo de BNB/NEAR → Dados de 20.10.2026

Onde os pares dão errado

O spread costuma abrir mais antes de fechar. O mesmo par, três anos depois: um episódio abriu em 3 de dezembro de 2024 e só fechou em 19 de novembro de 2025 — 351 dias. Quem agiu no primeiro cruzamento de ±2σ passou um ano certo cedo demais. Em toda a vitrine do site a mediana de um episódio fica perto de dois meses, e a distribuição tem uma cauda longa à direita.

A relação pode simplesmente acabar. No começo de 2022 um BNB comprava trinta NEAR. Hoje é um múltiplo disso. O spread voltou à «norma» várias vezes no caminho, só que a norma não parou quieta. Uma janela móvel não tem opinião sobre se o nível que ela está medindo ainda significa alguma coisa; a diferença entre «andam juntos» e «pertencem um ao outro» está em correlação e cointegração.

Duas pernas custam duas vezes. Taxas dos dois lados, funding na ponta vendida e o risco de a perna curta não estar disponível — ou sair cara — justamente quando a oportunidade parece melhor. A rotação evita o aluguel, mas paga o spread duas vezes e, na maioria das jurisdições, gera evento tributável.

Ser neutro ao mercado não é ser seguro. Isso remove um risco e mantém outro. Um par que diverge e continua divergido perde dinheiro de forma constante enquanto o mercado não anda — e errar assim é bem mais desconfortável do que apenas cair junto com todo mundo.

Para que um par serve

Ele responde a perguntas comparativas, e só a elas. Qual dos dois está com preço incomum em relação ao outro agora. Quão longe da norma. Quanto tempo esse intervalo historicamente levou para fechar.

Sobre se vale a pena ter qualquer um dos ativos, ele não diz nada, e sozinho não é uma estratégia — é uma medida sobre a qual se pode construir uma. Para quem carrega posição, a forma útil da pergunta é a simples: entre as coisas que eu poderia carregar no lugar, há algo incomumente barato contra o que eu tenho hoje, e quanto tempo isso costumava levar para compensar?

Para onde olhar depois

O screener ordena todos os pares do site por essa distância, de modo que a pergunta comparativa pode ser feita sobre centenas de pares de uma vez, e não sobre um. O spread de regressão explica como a distância é medida, e a razão BTC/ETH percorre a mesma leitura no par que quase todo mundo já acompanha.

Estas páginas descrevem como o site calcula suas métricas. Não são recomendação de operação nem sugestão para abrir qualquer posição.

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